A
língua tela tinha gosto de cigarro mentolado. Ela reclamou que meu lábio tinha
gosto de sangue de novo.
“Toda
vez que fica frio e depois quente e depois frio e alguém fica mordendo meus
lábios eles sangram um pouco. Minha pele é muito fina.”
Ela
me olhou como se não acreditasse o grande merda que eu era. O grande merda com
quem ela tinha passado o dia todo fazendo sei lá o que. Mas também isso pode
ter sido minha imaginação.
“Eu
tenho que ir” ela falou e virou o último copo de cerveja. Eu não entendi, mas
eu acho que ela falou algo como “me ligue depois”. Ela então saiu rebolando pela porta e todos os
homens olharam pra ela. Ela usava uma saia de couro ou algum material parecido,
dava vontade de tirar aquela saia o mais rápido possível. E eu sei que cada
homem daquele bar, e até algumas mulheres, pensaram o mesmo que eu pensei.
Fiquei
lá me sentindo o maior merda do universo. Acendi um cigarro e um cara apontou a
placa de ‘proibido fumar’ com a maior cara feia. Foda-se você eu pensei
enquanto apagava o cigarro.
Entrou
pela porta um cara que eu conhecia muito bem. Seu nome -acho eu- era Fred. Me
viu e sentou na minha mesa. Fred era, com certeza, o cara mais lindo da cidade.
Ele ficou me olhando com sua cara linda sem dizer nada por sei lá quanto tempo até
que falou um simples “oi Marvin”. Fazia
um calor dos diabos e eu esvaziei mais uma cerveja. “e ai Fred?”
Fred
tinha esse problema, apesar de ser o cara mais lindo que todos naquele bar
tinham visto, ele não queria ninguém. Ele não era gay, nem era hétero. Não pergunte
como um cara daqueles não queria comer ninguém mas era isso que ele sempre me
dizia. “porra Marvin eu não acho ninguém que valha um segundo da minha atenção”
Muito
me surpreendia que ele estivesse me dando um minuto de sua atenção, mas eu acho
q até caras como o Fred precisam de amigos pra beber às vezes.
“você
acredita em amor?”
“Marvin,
eu acredito no amor. Mas só para os outros, pra mim eu não sei”
“Ela
me disse que eu deveria parar de ler Bukowski e focar nos meus objetivos. Que
desse jeito no máximo eu chego até um merda, ao invés do ‘merda-total’ que eu
sou hoje”
“E
o que ela sabe sobre qualquer coisa? Ela me lembra meu pai. O velho era um
merda e queria dar palpite na merda dos outros. Ei Marvin, não escute as
pessoas, elas vão te botar pra baixo se você deixar.”
“Fred
eu realmente duvido que alguém te colocaria pra baixo. Tu parece um modelo de
revista, qualquer homem ou mulher só teria elogios pra você. Ainda que você
fosse um boçal, o que eu sei que você não é.”
“Você
acha isso, muita gente acha isso. Eu é que não consigo acreditar nessas coisas
que você acabou de falar. Sei lá, sou estranho. Rock britânico e depressão acabam
impregnando em você.”
“É
cara acho que sim. Você lembra do Luís, sempre confiante escrevendo poemas horríveis?
Sumiu, nunca mais ví”
“uma
hora ele aparece pra te ler umas merdas.
“Te
vejo depois, se eu não morrer no caminho.”
“A
filosofia de vida de Marvin é que ele pode morrer a qualquer momento. A
tragédia, ele dizia, é que ele não morre”