sexta-feira, dezembro 27, 2013

FRED

                A língua tela tinha gosto de cigarro mentolado. Ela reclamou que meu lábio tinha gosto de sangue de novo.
                “Toda vez que fica frio e depois quente e depois frio e alguém fica mordendo meus lábios eles sangram um pouco. Minha pele é muito fina.”
                Ela me olhou como se não acreditasse o grande merda que eu era. O grande merda com quem ela tinha passado o dia todo fazendo sei lá o que. Mas também isso pode ter sido minha imaginação.
                “Eu tenho que ir” ela falou e virou o último copo de cerveja. Eu não entendi, mas eu acho que ela falou algo como “me ligue depois”.  Ela então saiu rebolando pela porta e todos os homens olharam pra ela. Ela usava uma saia de couro ou algum material parecido, dava vontade de tirar aquela saia o mais rápido possível. E eu sei que cada homem daquele bar, e até algumas mulheres, pensaram o mesmo que eu pensei.
                Fiquei lá me sentindo o maior merda do universo. Acendi um cigarro e um cara apontou a placa de ‘proibido fumar’ com a maior cara feia. Foda-se você eu pensei enquanto apagava o cigarro.
                Entrou pela porta um cara que eu conhecia muito bem. Seu nome -acho eu- era Fred. Me viu e sentou na minha mesa. Fred era, com certeza, o cara mais lindo da cidade. Ele ficou me olhando com sua cara linda sem dizer nada por sei lá quanto tempo até que falou um simples “oi Marvin”.  Fazia um calor dos diabos e eu esvaziei mais uma cerveja. “e ai Fred?”
                Fred tinha esse problema, apesar de ser o cara mais lindo que todos naquele bar tinham visto, ele não queria ninguém. Ele não era gay, nem era hétero. Não pergunte como um cara daqueles não queria comer ninguém mas era isso que ele sempre me dizia. “porra Marvin eu não acho ninguém que valha um segundo da minha atenção”
                Muito me surpreendia que ele estivesse me dando um minuto de sua atenção, mas eu acho q até caras como o Fred precisam de amigos pra beber às vezes.
                “você acredita em amor?”
                “Marvin, eu acredito no amor. Mas só para os outros, pra mim eu não sei”
                “Ela me disse que eu deveria parar de ler Bukowski e focar nos meus objetivos. Que desse jeito no máximo eu chego até um merda, ao invés do ‘merda-total’ que eu sou hoje”
                “E o que ela sabe sobre qualquer coisa? Ela me lembra meu pai. O velho era um merda e queria dar palpite na merda dos outros. Ei Marvin, não escute as pessoas, elas vão te botar pra baixo se você deixar.”
                “Fred eu realmente duvido que alguém te colocaria pra baixo. Tu parece um modelo de revista, qualquer homem ou mulher só teria elogios pra você. Ainda que você fosse um boçal, o que eu sei que você não é.”
                “Você acha isso, muita gente acha isso. Eu é que não consigo acreditar nessas coisas que você acabou de falar. Sei lá, sou estranho. Rock britânico e depressão acabam impregnando em você.”
                “É cara acho que sim. Você lembra do Luís, sempre confiante escrevendo poemas horríveis? Sumiu, nunca mais ví”
                “uma hora ele aparece pra te ler umas merdas.
                “Te vejo depois, se eu não morrer no caminho.”

                “A filosofia de vida de Marvin é que ele pode morrer a qualquer momento. A tragédia, ele dizia, é que ele não morre”

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