Aquele era um ano bem difícil pra
mim. Cursinho é uma das melhores e piores coisas que se pode fazer. Por um lado
a sensação de matar aula pra ficar o dia inteiro na casa da sua amiga é muito
legal, por outro ficar com peso na consciência por causa disso não é tão bom.
Eu
tinha acabado de entrar na sala quando meu celular vibrou.
“então o que você está fazendo?”
“nossa, nada. Esperando o
professor pra mais um dia zuado”
“que merda.”
“pois é”
Ficamos
um tempo em silêncio. Fazia um lindo dia lá fora, alguns passarinhos cantavam e
um monte de gente seguia pro ponto de ônibus.
“o que você vai fazer?”
“não sei ainda. Acho que vou
passar o dia deitada.”
“isso é bom. Faz tanto tempo que não
fico o dia inteiro assim”
“porra vem pra cá então”
Sai
pela porta andando devagar, cruzei com o professor e nossos olhos se encontraram.
Foda-se tudo quando alguém te chama pra fazer algo melhor. Ou simplesmente não fazer
nada. A vida é muito curta né? Mesmo que às vezes, quando você ta sentado lá
pensando pra onde está indo, de onde veio e blá blá ela pareça longa demais. Divago.
Fui
direto pro ponto de ônibus mas não conseguia lembrar de jeito nenhum qual deles
eu deveria pegar. Perguntei pra uma mulher do meu lado e ele nunca tinha ouvido
falar daquele bairro. Peguei o primeiro ônibus que dizia shopping dom Pedro,
decidi que ia andar a partir dali. Andar nunca fez mal pra ninguém.
Por
sorte o ônibus passou na rua de trás da casa dela. Desci e fui andando. Procurei
meus cigarros no bolso, mas achei que não ia dar tempo pra fumar, então guardei
eles no bolso de novo.
Ela atendeu a porta e já me deu uma cerveja, gelada, como o coração das meninas que eu tinha conhecido até então, e me disse pra
entrar. Parecia que a mãe dela não aparecia lá há semanas por que a casa estava
uma bagunça. Tinha até um sapato em cima da mesa de jantar.
“então, sua mãe está em casa?”
“ela vem e vai o tempo todo. Mas ultimamente
acho que está morando com o namorado dela”
Ela me deu mais uma cerveja e jogou a outra
num canto qualquer. Também tinham algumas latas em cima da televisão. Tomei um
gole e depois olhei pra ela. Me perguntei por um momento se eu devia fazer alguma
coisa. Não precisei decidir, ela se aproximou e me beijou. Primeiro no rosto, e
depois na boca.
A
manhã estava começando a ficar boa.
“porra eu estou cansado.”
Me
sentei na cama procurando a minha camisa.
“muita diversão?”
“andei pra caramba pra chegar até
aqui. Não sabia qual ônibus pegar então eu desci no dom Pedro." menti mesmo, na cara dura. Só pra verse ela ia ficar com dó de mim.
“sabe que tem um ônibus que passa
na rua de trás?”
“bom, agora eu sei. Da próxima vez
eu não vou ficar tão cansado”
“eu acho que não vai ter uma próxima
vez”
Eu
dei uma engasgada pois estava no meio de um gole de cerveja.
“bom, eu ia te falar antes mas
achei que você ia ficar todo meloso. Então resolvi só aproveitar o momento.”
“acho que foi uma boa ideia”
“é.... Então. Não é nada sobre
você, é só que eu vou morar com meu pai...”
“nossa você está me trocando por
um homem que tem idade para ser seu pai!”
Ela
me olhou de um jeito que dizia “não faça piada com a minha cara”
“brincadeira. Mas eu acho que...
olha eu só posso dizer que eu quero que você seja feliz não importa onde
seja... digo, eu não sou muito bom em dizer coisas, nem com despedidas. Acho que
eu simplesmente vou embora. Qualquer dia nos nos encontramos... “
“nessa vida ou na próxima”
Matei
minha cerveja antes de dizer:
“você e essas merdas que você
fala!”
Sai
da casa dela e fui direto pra casa. Não ia conseguir chegar no horário da aula
de química. Afinal quimica é sempre o que fode com as coisa que deveriam ser só
físicas. Você quer só o bom e velho atrito, mas seu coração reage de forma
totalmente imprevisível.