O
vento é frio e vai passando bem rápido pelas minhas orelhas. Depois gela meu
nariz. Já sei que vou ficar resfriado por que meu nariz parece uma cachoeira e
escorre litros. Eu espero pacientemente, sentindo cada volta que o ponteiro dá
no meu relógio.
Olho
pro pulso e me lembro que não uso relógio há anos.
Se
eu tivesse um relógio ele diria que eu estou aqui há mais uma hora.
Que
estou aqui o dia todo.
Que
meu ultimo amigo de verdade foi um dinossauro ou um homem das cavernas que
morreu há mil anos. Desde quando estou aqui esperando?
Um
minuto.
Cinco
anos.
Eu
matei o homem das cavernas quando ele tentou me comer atrás de uma pedra. Nada contra,
eu só prefiro homens com pouco pelo. E pedras são duras demais.
Normalmente
eu tento ser direto em tudo que faço ou digo. Mas esse tipo de coisa não
acontece quando me deixam esperando horas. Ela disse que passava em dez minutos
no seu lindo carro vermelho, azul e de todas as cores do mundo.
E
eu penso em tudo que poderia estar fazendo se estivesse em casa naquele
momento. Poderia terminar de escrever meu livro. Fumar um monte. Ou ficar
deitado repassando meus erros. Cada erro que já cometi na vida. Você fica
viciado nisso em pouco tempo.
Escuto
ao longe uma vozinha.
“viado.
seu merda”
O
vento passa pelas minhas orelhas e eu imediatamente lembro do meu pai. Se o
velho estivesse vive ele seria como o vento. Tentando me levar pro outro lado,
gelando minhas orelhas e me chamando de viado. Me reprovando.
Foda-se
você vento. Eu não vou me levantar daqui. Olho pro lado e vejo o corpo do
caverninha. Não vai tentar comer ninguém agora né?
Um
carro para e eu entro correndo.
“você
tomou café demais né? De novo?”
“você
demorou mil anos. Eu fiquei em pânico”
“como
você tá hoje?”
“com
vontade de te chupar até ficar seca”
“que?”
“com
saudade do meu pai e com a boca seca.”

